Sunday, April 27, 2008

27 de Abril de 1928. E fez-se a Luz

Há exactos oitenta anos um jovem catedrático de finanças e economia política - "um tal Salazar de Coimbra" - assumia a pasta ministerial das Finanças. Dois anos após o "28 de Maio", os militares ainda não tinham encontrado solução para o lastimável estado das finanças públicas. Nos cafés de Lisboa alguns apostavam quanto tempo o "rapaz" aguentaria no governo...

Na sala do Conselho de Estado, em 27 de Abril de 1928, no acto da posse de Ministro das Finanças, proferiu Salazar as seguintes palavras:

Senhor Presidente do Ministério: - Duas palavras apenas, neste momento que V. Exa., os meus ilustres colegas e tantas pessoas amigas quiseram tornar excepcionalmente solene.

Agradeço a V. Exa. o convite que me fez para sobraçar a pasta das Finanças, firmado no voto unânime do Conselho de Ministros, e as palavras amáveis que me dirigiu. Não tem que agradecer-me ter aceitado o encargo, porque representa para mim tão grande sacrifício que por favor ou amabilidade o não faria a ninguém. Faço-o ao meu País como dever de consciência, friamente, serenamente cumprido.

Não tomaria, apesar de tudo, sobre mim esta pesada tarefa, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a minha acção, e de que estavam asseguradas as condições dum trabalho eficiente. V. Exa. dá aqui restemunho de que o Conselho de Ministros teve perfeita unanimidade de vistas a esse respeito e assentou numa forma de íntima colaboração com o Ministro das Finanças, sacrificando mesmo nalguns casos outros problemas à resolução do problema financeiro, dominante no actual momento. Esse método de trabalho reduziu-se aos quatro pontos seguintes:

a) Que cada Ministério se comprometa a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças;

b) Que as medidas tomadas pelos vários Ministérios, com repercussão directa nas receitas ou despesas do Estado, serão préviamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças;

c) Que o Ministério das Finanças pode opor o seu "veto" a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis;

d) Que o Ministério das Finanças se compromete a colaborar com os diferentes Ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para que se possam organizar, tanto quanto possível, segundo critérios uniformes.

Estes princípios rígidos, que vão orientar o trabalho comum, mostram a vontade decidida de regularizar por uma vez a nossa vida financeira e com ela a vida económica nacional.

Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com confiança na minha inteligência e na minha honestidade - confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.

Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.

A acção do Ministério das Finanças será nestes primeiros tempos quase exclusivamente administrativa, não devendo prestar larga colaboração ao Diário do Governo. Não se julgue porém que estar calado é o mesmo que estar inactivo.

Agradeço a todas as pessoas que quiseram ter a gentileza de assistir à minha posse a sua amabilidade. Asseguro-lhes que não tiro desse acto vaidade ou glória, mas aprecio a simpatia com que me acompanham e tomo-a como um incentivo mais para a obra que se vai iniciar.

E o "rapaz" ficou... quarenta anos. E Portugal ressurgiu na grandeza da sua dimensão histórica.

5 Comments:

At 28 April, 2008 05:15 , Blogger O Réprobo said...

Quando os ministros eram Salazares...
Ou a austeridade cordial nas palavras a anunciar a dos Actos.
Abraço. Muito bem lembrado e postado!

 
At 28 April, 2008 14:04 , Blogger Marcos Pinho de Escobar said...

Política de Verdade, Caro Réprobo.
Um forte abraço.

 
At 29 April, 2008 15:03 , Anonymous Anonymous said...

27 de abril de 1928 : "Chegou o Antonio"........

 
At 30 April, 2008 12:00 , Blogger osátiro said...

E, infelizmente, ainda deixou os cofres cheios para se cometerem todos os desmandos com a Abrilada...

 
At 07 May, 2008 12:42 , Anonymous Anonymous said...

Pois e dessa forma manteve um pais sub-desenvolvido por vários anos dando origem ao actual estado de coisas

 

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