Brasil... mentiras mil

Não raro entre os historiadores menos familiarizados com os antecedentes da medida, a transferência - ou transmigração como preferem alguns historiadores - é tida como fuga: mas a generalidade dos tratadistas reconhecem que a decisão correspondeu a um plano de Estado, de que Martim Afonso de Sousa, o donatário de São Vicente do século XVI, teria sido o primeiro a anunciar quando apontou a D. João III a "doidice (que) seria viver um rei na dependência de seus vizinhos, podendo ser monarca de outro maior mundo". Meio século mais tarde, derrotada a candidatura do Prior do Crato à sucessão de D. Sebastião, fora D. António aconselhado pelo capitão do porto de Lisboa a aproveitar as naus ali aparelhadas e fazer-se à vela para o Brasil, de modo a nele estabelecer o trono português. Do mesmo modo, D. João IV, durante os anos da periclitante luta para consolidar a restauração, teria considerado o plano do padre António Vieira de sentar no trono de Lisboa o seu filho D. Teodósio, enquanto ele próprio iria defendê-lo a partir do Brasil. Também, D. Luís da Cunha, no século XVIII, confessava a D. João V - para cuja magnanimidade lhe parecia modesto o reino europeu! - ter pensado em sugerir ao soberano "aquelle imenso continente do Brasil" para que nele "tomasse o título de "imperador do Ocidente". Do mesmo modo, quer após o terramoto, quer quando, pouco depois, a nação mais uma vez sofreu nova invasão espanhola no decurso da Guerra dos Sete Anos, o marquês de Pombal visionara a transferência de D. José e da família real para o Brasil. Por último, em 1801, ou seja, seis anos antes da decisão final, o marquês de Alorna recomendara a instalação da corte no "grande império do Brasil". Perante a hesitação do príncipe D. João, mais incisiva viria a ser a sugestão, dois anos após, desta vez por parte dos conselheiros e ministros D. Rodrigo de Sousa Countinho e Silvestre Ribeiro Ferreira, acentuando este último "que à lusitana monarquia nenhum outro recurso restava, senão o de procurar quanto antes nas suas colónias um asilo contra a hidra então nascente, que jurara a inteira destruição das antigas dinastias da Europa". E Talleyrand recomendara aos delegados portugueses no Congresso de Viena que aconselhassem D. João a manter a corte no Rio de Janeiro, de modo a que o Brasil fosse elevado a reino unido a Portugal, assumindo o príncipe D. Pedro o governo em Lisboa.
14 Comments:
VOLTOU QUE ALEGRIA!
Ó Euro, se esteveno Brasil porquê não veio pra São Paulo para encontrarmo-nos?
Embora de partida para férias, saúdo o Seu regresso.
Cumprimentos.
Mário
Obrigado Caro Acja. Vejo que também regressou ao blog em força. Da próxima vez SP será parada obrigatória.
Um abraço
Caro Mário, obrigado. Cá o esperamos para "ouvir" a "Voz" depois de umas grandes férias.
Um abraço
Bem vindo, bem vindo! E logo com um tema desses... que não cabe na blogosfera; oxalá fora isto mesmo uma tertúlia "live"...
Bem haja! Folgo em revê-lo. Já agora, por acaso, ainda antes de ontem, numa livraria, estive com o "Empire Adrift" em mãos avaliando se valia a pena leva-lo ou não. Fiquei com receio do conteúdo e acabei levando uma biografia de D. Pedro II, ótima, por sinal. Suponho que tenha lido o "Empire Adrift". O que achou? Vale meus parcos reaiszitos? Cumprimentos, jjm.
A título de desagravo, mando-lhe o blog dum brasileiro às direitas. Acho que vai gostar.
http://gloriadaidademedia.blogspot.com/.
Cumprimentos, jjm.
Caro Je Maintiendrai,
Obrigado pela recepção! Depois do delicioso "bilhete de Roma" a cidade eterna regressa ao plano de voo.
Abr.
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Amigo Anónimo,
Obrigado. Ainda não li a obra. Confesso que também duvidei do conteúdo, mas decidi adquiri-la. Em breve direi da minha justiça.
Apreciador da Idade (que não era das "trevas") Média achei óptima a sugestão do http://gloriadaidademedia.blogspot.com/
Abr.
Muito oportuno.Dá gosto ler textos assim.
Saúdo o seu regresso. O tema é como diz o Je Maintiendrai...
Já li o livrinho cuja capa apresenta. Exactamente na edição inglesa. As hesitações que vejo aqui justificam-se:pende para o fraco. O autor é australiano e parece-me que não disfarça algum ressabiamento anti-colonial, possivelmente consolidado no Brasil, por onde andou em O.N.G. ou algo parecido. Desliza para algumas alarvidades desnecessárias (e pouco fundamentadas) sobre o D. João VI, o que deslustra a obra. Duvido que o fizesse referindo-se à família real britânica (e daí não sei, hoje qualquer baixeza colhe). O resto é trivial, embora acentue de entrada o historial da ideia de mudança da corte para o Brasil.
Lembro-me que tomei algumas notas no caderninho para algum verbete que ao depois não fiz... O caso é que é mais uma obra para deixar esquecer. Ele há tanta coisa melhor.
Cumpts.
Poderei chamar Portugal de "país-irmão" quando os brasileiros não serem mais tratados como caipiras indesejados na "terrinha", ou onde nossas mulheres são vistas como meretrizes. Ora pois, vem um português no Brasil e ele será tratado com todas as regalias possíveis; infelizmente, o tratamento não é recíproco na "pátria-madrasta". Desculpa, mas precisava desabafar!!!
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